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A DONA MORTE: respeito é bom e ela gosta!
01/07/2010 15h42

                                 José Ribamar d’Oliveira Costa Junior*

Trataremos neste artigo de um tema sempre muito caro a todos nós pobres mortais, que na verdade consiste na única certeza que temos na vida – que um dia iremos morrer, de preferência sem saber o ano, o dia e a hora. Pois o assunto é tão delicado e quase nunca estamos preparados para tanto, apesar de que em algumas situações pode haver certo conformismo ou aceitação.

No que pese toda essa certeza, constata-se facilmente que o homem constantemente brinca com a morte, afronta-a e a desrespeita de uma maneira tal como se a sua vez não fosse chegar um dia, de forma que anda em situações de iminente perigo, muita das vezes até sem se dar conta da morte. O que pode ser um erro fatal. Qual de nós nunca passou por uma situação de perigo? Quando até mesmo ao nascer corremos o risco de morrer precocemente!

O fato é que mesmo correndo-se todos os riscos da vida procura-se não se dar muita importância a essa temática ou, melhor dizendo, finge-se que não se dá. Caso contrário, a vida cá na terra se tornaria um tanto quanto sem graça, uma vez que correr riscos faz parte da essência do próprio ser humano. Mas, lembre-se, um risco comedido e não de extrema insensatez.

Apesar de a todo instante morrer milhares de pessoas no mundo: de morte natural, vítimas de assassinatos, acidentes e catástrofes da natureza, lógico que ficamos compadecidos, principalmente nesses casos de morte violenta, que ceifa a vida de determinadas pessoas antes da hora. Mas qual é a hora certa? Como já disse acima melhor não sabermos. A verdade é que não esperamos que aconteça com a gente e com alguém da nossa família ou pessoa mais próxima. Portanto, quando a morte alcança um ente querido nosso é que de fato sofremos toda a dor, angústia e estresse dela decorrente, podendo levar anos a fio esse sentimento de perda, difícil de ser superado.     

Pois bem, para amenizar esse sofrimento o homem buscou se socorrer dos firmamentos divinos e religiosos, consubstanciados nos postulados de que a nossa vida aqui na terra é uma passagem e que a mesma terá continuidade numa vida espiritual, isso para quem tem fé em Deus; sendo que para outros, céticos ou ateus, a vida se resume e se esgota aqui na terra, não admitindo a vida celestial ou as profundezas do inferno.

O certo é que, apesar de tudo, a vida é muito boa. Tanto que diz o ditado popular: se a morte é um descanso eu prefiro viver cansado. Sem maiores comentários.

Para o saudoso patrício JOSÉ SARAMAGO, falecido recentemente, único escritor da língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, a vida é tão boa que ele ainda não gostaria de despedir-se dela, porém, dizia: Não consigo temer a morte. Em seu livro Intermitências da Morte, o referido autor descreve o enredo segundo o qual a morte de tanto se ver lastimada e maldita resolveu deixar de acontecer numa determinada localidade fronteiriça, de forma que os velhos e enfermos de toda ordem não conseguiam morrer, ocasionando com isso grande número de moribundos nas suas casas e hospitais numa situação insustentável, gerando inclusive o tráfico de pessoas nesse estado de saúde para poderem “descansar” além fronteira. Moral da estória, o caos foi tão grande que a sociedade passou a implorar pelo retorno da morte, que, assim, se nos apresenta como essencial para a continuidade da vida através de gerações a gerações.     

Desde menino, ouvi falar em Viana - Ma, minha terra natal, cidade histórica e de forte cultura popular, a famosa SERRA VELHA, brincadeira, para alguns, de mau gosto, oriunda da cultura portuguesa e realizada no dia de São José, todo dezenove de Março, na qual os participantes identificam as pessoas mais idosas da comunidade, principalmente aquelas mais sérias ou ranzinzas, e durante a madrugada com muita algazarra fazem o prelúdio da morte que teria vindo buscá-la, e, falando com a boca no balde para dar um som mais aterrorizador, anunciam a chegada da hora do escolhido.

Durante o ato de agouro é feito, de forma muito engraçada, o inventário e partilha dos bens entre os herdeiros, sendo que em algumas ocasiões o inventariante, já precavido e bastante indignado com a “palhaçada”, espera os participantes com um “pinico” cheio de urina adormecida para neles arremessá-los.

Não vou me aprofundar mais sobre a Serra Velha nesta oportunidade, até porque pretendo fazer uma pesquisa mais apurada para descrevê-la com mais precisão, ficando o registro apenas para ressaltar que se brinca com a morte de muitas maneiras, apesar de ser a mesma bastante temida por quase todos.

Ultimamente, passei a conviver mais de perto com a morte, quando no dia 26 de Julho de 2006 faleceu precocemente o nosso querido irmão Messias Costa Neto, e, mais recentemente, o nosso querido pai Zezico Costa, como era mais conhecido, no dia 11 de Julho de 2009, além de vários outros parentes e amigos. Ressalte-se que a experiência é muito dolorosa e nos deixa um vazio muito grande na alma, que consiste no sentimento expressado pelo nosso rico vocabulário pela palavra S A U D A D E!

Para finalizar, observa-se que a Morte é adjetivada por vários outros nomes, dependendo do lugar e ao gosto do “freguês”, sendo o mais comum “a viagem”. Eu poderia citar mais alguns, mas não vou fazer isso, até para não incomodar pessoas com os nomes coincidentes. Contudo, fica o recado: a todo custo deve-se respeitar a dona Morte, mesmo porque respeito é bom e ela gosta!!!

                        

                    *Juiz Auxiliar de Entrância Final e membro da Academia Vianense Letras - AVL


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