MAIS DEMANDAS, MAIS PRODUTIVIDADE
15/10/2010 16h16
Artigo publicado no Jornal O Globo
Rio de Janeiro-RJ, 14 de outubro de 2010
Gervásio dos Santos
Presidente da Associação dos Magistrados do Maranhão - AMMA
Candidato a Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros - AMB
O Judiciário brasileiro é um dos
mais produtivos do mundo. E quem sustenta tal afirmação não é nenhuma liderança
associativa que, assim como eu, acredita — e sempre a defendeu — na pujança
laboral dos magistrados.
A constatação partiu do próprio
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ao divulgar, no mês de setembro, o
relatório “Justiça em números 2009”.
O relatório do CNJ revelou o
verdadeiro paradoxo em que se encontra o Judiciário brasileiro. De um lado,
aumento considerável das demandas; do outro, carência de juízes nos estados.
Somando-se a tudo isso, deficiências crônicas em questões estruturais,
resultado da falta de investimentos para fazer face ao aumento dos índices de
litigiosidade.
A sociedade brasileira está
litigando cada vez mais. Isso é fato. Em 1990, as Justiças estaduais, Federal e
Trabalhista receberam 5,1 milhões de novas ações. O relatório do CNJ aponta que
em 2006 foram 22 milhões. Em 2008, foram ajuizados 25,5 milhões de novos
processos. Somando-se essas ações com as que foram protocoladas nos anos
anteriores e ainda aguardavam julgamento, 2009 começou com 86,6 milhões de
ações em tramitação nos três ramos da Justiça.
Diante de tal realidade,
pergunta-se: a quem se deve culpar por essa situação? Aos magistrados? Claro
que não.
Em que pese o descontentamento da
sociedade — compreensível, eu diria —, sobre os ombros dos magistrados não
recai qualquer culpa por essa situação, principalmente os de primeiro grau.
Eles também são vítimas dessa situação na medida em que trabalham com
sobrecarga de demandas além do suportável. E, mais uma vez, repito: a
constatação não é minha, é do próprio CNJ.
O Judiciário brasileiro poderia
funcionar melhor e ser mais eficiente se os magistrados tivessem boas condições
de trabalho, mais funcionários, estrutura física adequada, acesso às novas
tecnologias de informática e juízes em número suficiente para atender à demanda
processual, cuja tendência é crescer ainda mais.
O relatório do CNJ só vem a
comprovar aquilo que o movimento associativo há muito alerta: a magistratura
brasileira é produtiva. Os números comprovam que os magistrados brasileiros
superaram seus próprios limites de produtividade e de eficiência. O que nos
deixa apreensivos é que todo esse esforço deveria resultar em uma escala
decrescente na quantidade de processos. Ledo engano.
Se algo não for feito de
imediato, o gargalo do Judiciário tende a estreitarse ainda mais. A situação
agravase tal e qual a de um paciente acometido por doença crônica. Além de
magistrados angustiados e vitimados pela baixa autoestima, decorrente de tantas
críticas, encontra-se o cidadão que vê os seus direitos serem violados e a
busca de justiça transformarse em algo quase inatingível.
É preciso saber exatamente quais
são as principais carências estruturais da magistratura e tentar saneá-las com
mais investimentos. Inversão de prioridades já é um bom começo para chegarmos
ao nível estrutural que o Judiciário necessita. Mas, para isso, é necessária a
democratização interna, pois só sabe onde o sapato aperta quem o está calçando.
Isso significa dizer que a participação de todos os juízes na escolha dos
presidentes dos tribunais é imprescindível.
Melhorar o planejamento,
priorizar os gastos voltados à prestação jurisdicional, incorporar ao seu
cotidiano ferramentas que dinamizem as suas atividades, distribuindo os
esforços entre as instâncias, são medidas eficazes que assegurarão mais
efetividade ao serviço jurisdicional.
Não tenho dúvida que
democratização interna do Poder Judiciário é o caminho inicial na busca de
soluções para aumentar a sua eficiência, de sorte que a discussão do tema não
deve mais ser postergada pela sociedade brasileira.